segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

A verdade por trás do problema da Birmânia

O combate por alterações políticas na Birmânia, liderada pelos monges, chegou às primeiras páginas de todos os meios de comunicação do mundo. No seu discurso na assembleia das Nações Unidas, Bush denunciou a Birmânia como sendo um “regime brutal” (juntamente com Bielorrússia, Cuba, Irão, Síria, Coreia do Norte e o Zimbabué).

Os meios de comunicação ocidentais, em compasso com o governo estadunidense, criaram a impressão de que as manifestações na Birmânia são “a favor da democracia” e contra a tirania política. Isso, sem excepção, é desinformação institucional. Na realidade, a questão relaciona-se com os preços “do pão e da manteiga”.

O New York Times, na sua edição de 24 de Setembro, explica no último parágrafo que os protestos começaram no passado “dia 19 de Agosto como reacção a um brusco e repentino aumento no preço da gasolina de 500% que, por consequência, aumentou os preços dos bens de consumo e dos transportes.”

Os protestos estão a ser liderados por estudantes e por monges. Os monges, por sua vez, denunciaram o governo por “empobrecer e depauperar” o povo. A linguagem das denúncias dos manifestantes não faz uma única referência à liberdade nem à democracia, termos tanto favorecidos e promovidos pela comunicação social corporativa estadunidense.

O “problema” principal de Washington com o governo da Birmânia está ainda menos relacionado com “o regime brutal” ou o “eixo do mal”. Os Aliados estadunidenses, como a Arábia Saudita, o Egipto, a Etiópia e o Iraque de Saddam Hussein nos anos 80 são/foram regimes sangrentos, plenamente apoiados pelo governo americano e obsequiados com a necessária protecção diplomática. Um dos problemas com a Birmânia está relacionado com os seus mercados, terras e recursos naturais não estão completamente abertos à exploração por parte dos interesses corporativos e financeiros ocidentais.

Não há dúvida de que o actual líder do país, o general Than Shwe, um semi analfabeto e um ditador desprezável, deveria ser julgado por crimes contra a humanidade por algum legítimo e competente Tribunal Internacional de Justiça. Mesmo assim, por trás da agenda americana do “regime brutal” existe um lado muito mais obscuro e pouco conhecido que se soletra – O NEGÓCIO DA DROGA.

Erradicar a droga é mau para o mundo financeiro

Segundo o Departamento de Drogas e Crime das Nações Unidas, o Triângulo Dourado (Birmânia, Laos e Tailândia) perdeu a sua relevância como principal fonte de ópio a nível mundial e, actualmente, conta como menos de 5% no abastecimento de ópio, um decréscimo significativo do pico de 70% há três décadas.

Pelo contrário, a Meia-lua Dourada e o Afeganistão, actualmente sob controlo das forças da OTAN e dos seus aliados, por outro lado, são os líderes absolutos do abastecimento e da produção de ópio, muito mais que a Colômbia e o Triângulo Dourado. O Afeganistão é a origem de 92% do ópio mundial, de acordo com os dados das Nações Unidas. O valor total da exportação total da colheita de ópio afegã, segundo a ONU, calcula-se em 3 mil milhões de dólares, metade do PIB do país. Pior que isso, 12% da população desse país de 23 milhões de habitantes, dedica-se exclusivamente ao cultivo do ópio. A maior parte da droga tem como seu destino final a Grã-bretanha, a Itália e a Espanha, segundo o já citado relatório da ONU.

Com as “forças da paz” da OTAN a controlar o país e o abastecimento de ópio afegão pela calada, alguém acredita ainda e realmente no conto de fadas de que a luta contra a droga se encontra a decorrer? Se a OTAN quisesse travar os senhores da guerra poderia fazê-lo numa questão de horas.

De facto, além de criticar o governo da Birmânia, a ONU devia dar plenamente o seu aval à Birmânia por esta liderar a luta contra a droga e a sua erradicação na zona de Shan, o epicentro do cultivo de ópio do país.

O que se oculta nas trevas?

A erradicação da droga do Triângulo Dourado está vinculada ao desenvolvimento geoestratégico que vai contra os interesses dos principais bancos ocidentais, os seus governos e as corporações transnacionais cujos sistemas financeiros e políticos defendem o fluxo bilionário que proporciona o nefasto negócio das drogas.

Os funcionários do combate à droga sustêm que a única maneira de acabar com a droga é acabar com os cultivos de papoila. Isso, sem excepção, iria francamente contra os grandes interesses dos governos ocidentais e de todas as instituições financeiras do mundo.

O dinheiro proveniente do tráfico de drogas é parte integral da economia ocidental. Anualmente, os dividendos gerados pelo comércio de estupefacientes rondam os setecentos mil milhões de dólares, livres de impostos, segundo a própria agência governamental estadunidense encarregada de monitorizar os fluxos de dinheiro a nível global. Setecentos mil milhões de dólares são demasiado dinheiro para se esconder nuns calções. São necessárias muita experiência e perícia para mover essa quantidade de fundos às escondidas. A ignorância, principalmente quando as transacções são ingentes, não é uma postura viável. Sem excepção, em cerca de cinquenta anos de lavagem de dinheiro da droga, foram poucas as pessoas que ficaram ao corrente de tão desagradável realidade. Porquê?

De facto, o dinheiro proveniente do tráfico de drogas é agora parte essencial do sistema bancário mundial porque proporciona o efectivo necessário para efectuar os “pagamentos mínimos mensais” do mercado especulativo nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

O efeito multiplicador (x6) da lavagem de setecentos mil milhões de dólares daria como resultado a soma anual de quatrocentos e vinte biliões de dólares em transacções resultantes do comércio de estupefacientes.

O valor das acções das empresas quotizadas em Wall Street depende das procuras netas anuais. As acções são fracções de propriedade nas companhias que representam a equidade. O efeito multiplicador nas acções da bolsa por vezes pode atingir um factor trinta, porque os analistas financeiros acreditaram durante muito tempo que o ratio saudável entre preço e dividendo para qualquer tipo de acções deve ser de quinze ou, no máximo, de trinta para uma. De modo que, se considerarmos esta cifra como uma equação estritamente matemática, se acrescentarmos apenas um dólar à procura anual da companhia, isso resultará num valor agregado para o mercado da bolsa de trinta dólares.

Que significa isto no mundo real? Para a Grande Banca, ter um lucro adicional líquido de dez milhões de dólares graças ao comércio de estupefacientes significa que os dividendos em bolsa poderiam ascender a trezentos milhões de dólares. Mesmo assim, antes que possam injectar este dinheiro na conta dos resultados anuais, há que lidar com o efectivo malparado.

Os dividendos provenientes do lucrativo comércio de estupefacientes são ilícitos, coisa que não devem ignorar aqueles que tratam de compreender como funciona o infame negócio das drogas. E antes que esse dinheiro se possa utilizar de modo ilícito, há que ocultá-lo e lavá-lo. O dinheiro move-se tão rapidamente que, a menos que tenhamos controlo sob os sistemas informáticos que o manuseiam, ou dos programas que esses sistemas informáticos utilizam, é impossível rastreá-lo. Isto deveria ser suficiente para vos explicar porque é que o negócio de estupefacientes é um GRANDE negócio, dirigido, controlado e protegido por pessoas muito poderosas que trabalham juntamente com as instituições financeiras e com a banca dos dois lados do Atlântico; funcionários de vários governos e de importantes corporações cujas acções se compram e vendem nos mercados bolseiros mais importantes do mundo.

Além disso, as corporações podem ganhar uma quantidade extraordinária de dinheiro ao pedirem dinheiro ilegal emprestado aos particulares e às nações traficantes de droga, como a Colômbia, a juros muito baixos e investi-lo (lavá-lo) de modo a obterem lucros astronómicos. Quando se faz um empréstimo de cem mil milhões de dólares a um juro de cinco porcento a uma empresa gigantesca, o dinheiro retorna como efectivo e lícito.

O comércio de estupefacientes tem vindo a obter poder porque sustenta os investimentos das maiores empresas mundiais. A Wall Street não pode permitir que caiam os magnatas da droga. O Congresso não pode permitir que os magnatas da droga caiam. Os presidentes e as suas finanças para as campanhas eleitorais não podem dar-se ao luxo de que caiam os magnatas da droga. Porquê? Porque a economia mundial, controlada um porcento da população, não pode permitir o risco que seria (para os negócios ou para a política) atreverem-se a não utilizar o dinheiro da droga. E por cada milhão de dólares em vendas ou em dividendos incrementados com uma venda de acções, a liquides bolseira do um porcento que controla Wall Street aumenta entre vinte a trinta vezes.

Os políticos encontram-se directamente envolvidos e a sua capacidade de intervenção depende do apoio com que contam e do financiamento que os mantém no poder. Esta cumplicidade de interesses é uma parte essencial da economia mundial, o combustível que mantém a girar as engrenagens do capitalismo.

Aqueles que se tenham unido às críticas contra o governo totalitário da Birmânia, deviam compreender que as suas iniciativas estão a ajudar o desenvolvimento da agenda oculta do “homem por trás da Cortina” que manuseia os cordéis do poder. [consulte o original]

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