segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

A Turquia e a liberdade

Boas noites a todos. Já me encontro em Madrid. Tenho muitas novidades por contar. Primeiro, tenho que dizer que o povo turco é extremamente valente, honrado e consciente dos perigos que constitui a Europa para o seu bem-estar. Há 3 semanas, mais de 2 milhões e meio de cidadãos turcos saíram às ruas para protestar os planos do governo do primeiro-ministro Erdogan em pedir a admissão da Turquia na Europa. Ao contrário do que nos contam os meios de comunicação social corporativa da Europa, a esmagadora maioria dos turcos não querem ter nada a ver com a Europa.

Vamos por partes.

Durante os quase três dias que passei em Istambul e as 14 entrevistas televisivas, posso-vos dizer que, em absoluto, todos os partidos políticos não relacionados com a Bilderberg – sejam esquerda, direita, comunista, extremista, muçulmano radical – estão a trabalhar de forma unida contra os planos de Erdogan, membro a tempo inteiro do Clube Bilderberg.

As eleições na Turquia no dia 22 de Julho, foram o microcosmo de como a maquinaria do Clube Bilderberg funciona na realidade. Quando Erdogan venceu as últimas eleições há quatro anos, ele e o seu partido islâmico radical, AKP, prometeram reformar-se, moderar-se e procurar levar a cabo uma cooperação muito mais estreita com o ocidente. Assim fizeram. O alívio inicial dos cidadãos moderados da Turquia, que são na realidade quase todos, ao contrário do que nos metem na cabeça os órgãos de comunicação social de Espanha, deu origem a uma profunda indignação quando Erdogan e a sua gente começaram a vender todos os bens do país aos interesses ocidentais, maioritariamente estadunidenses, britânicos, franceses e alemães. Actualmente, para exemplificar, todos os bancos do país estão nas mãos das grandes multinacionais. A privatização é a ordem do dia em todos os sectores do país. Os primeiros a sofrer com as consequências foram os do sector da saúde, um dos mais competentes e baratos do mundo.

Para que tenham conhecimento, os maiores entraves à inclusão da Turquia não são o Sarkozy nem os manda-chuvas de Bruxelas, são os próprios cidadãos turcos que melhor que ninguém entendem que unirem-se à Europa é perder a liberdade. Unir-se à Europa é converter-se numa versão ainda mais pobre que o México, que tem o papel do trabalhador sujo e analfabeto da América do Norte. É muito diferente o discurso quando o ouvimos de uma outra perspectiva, é verdade!

Assim sucedeu, tal como de igual modo aquando do voto do NÃO à constituição europeia por parte da França e da Holanda, quando a maior parte dos políticos e órgãos de comunicação social da Europa tentavam ameaçar e meter medo aos cidadãos com previsões apocalípticas e conspiranóicas, o governo de Ergodan e os think tanks do género dos RAND, Hudson e o American Enterprise Institute montaram uma campanha de desinformação em todos os órgãos de comunicação social afirmando que se o país não votasse favoravelmente ao partido de Erdogan, a Turquia seria invadida pelo Islão radical e se converteria num feudo do terrorismo internacional.

Quando os turcos repudiaram essa linha de argumentação, há aproximadamente um ano, Erdogan e os seus aliados passaram ao plano C. O plano C consiste em reduzir os direitos civis dos cidadãos alegando medidas de prevenção do terrorismo. As reduções seguem o padrão já muito visto na Inglaterra e nos EUA com fortes medidas de segurança, polícia e exército nas ruas para nos protegerem, supostamente contra a al Qaeda, controlos policiais em nome da paz (soa familiar?), escutas telefónicas (soa familiar?), encarceramentos e um estado geral de alto risco e inquietação. Supostamente, a Turquia, um país verdadeiramente livre, não iria permitir que um eminente ditador (soa familiar?) reduzisse os direitos dos cidadãos. Milhões saíram à rua exigindo a demissão do primeiro-ministro.

Reacção, os órgãos de comunicação ocidentais tais como Wall Street Journal, Financial Times, New York Times, The Chicago Tribune, CNN, Fox, a uma só voz começaram a criticar a política “anti democrática” de Erdogan. Como? Questionam-se muitos. Não é Erdogan um membro do Clube Bilderberg, tal como todos estes órgãos de comunicação social que supostamente o estão a criticar? Pois claro que sim! Então, que se passa? O que se passa, é a Bilderberg no seu estado mais puro.

Reduzir os direitos dos turcos, empurra os turcos moderados para a democracia e para a Europa. O partido turco que defende o “liberalismo de centro complacente na Turquia” anti Erdogan é liderado por Kemal Dervis. O slogan do seu partido é: Pela Europa com a Turquia à frente. Que bonito, é verdade! O problema é que Kemal Dervis também é membro do Clube Bilderberg, além de ser um internacionalista do género do Javier “o orgulho de Espanha” Solana. Já temos denunciado nesta página como Solana tem vindo a trair a Espanha.

Mesmo assim, a Bilderberg e os seus aliados estão a levar o assunto muito a sério. Há muito em jogo. Há 17 dias, as primeiras páginas de todos os órgãos de comunicação social não governamentais do país mencionaram os planos divulgados por alguém do seio do Instituto Hudson em relação à Turquia. Numa reunião secreta em algum lugar na Turquia, uns dias antes da última reunião do Clube Bilderberg em Istambul, Hudson, financiado com dinheiro da Corporação Rockfeller e liderado por Marie Josee Kravis, esposa de Henry Kravis do KKR, ambos do Clube Bilderberg, delineava vários planos para “convencer” os turcos da necessidade de se unirem à Europa. Segundo os detalhes assombrosos que figuravam em absolutamente todos os órgãos de comunicação social não governamentais do país, Hudson falava de “um pequeno atentado com entre 15 a 25 mortos”. Outro dos planos passava por desacreditar um dos parlamentares anti europeus do país substituindo-o por um seguidor do partido do Curdistão que fazia parte do mesmo partido, provocando uma rebelião dentro do partido quando este recém ascendido parlamentar apresentasse em público os seus planos de separatismo do Curdistão turco da restante pátria (soa familiar?).

Este jogo sujo era a última gota. O exército turco, o verdadeiro equilíbrio da paz no país, tomou conta do assunto. Os generais do Estado-maior avisaram de forma taxativa que não se deve brincar com a democracia. Porque será que tenho a sensação de que os cobardes deste país jamais fariam algo semelhante sem antes pedirem autorização a Zarzuela (palácio do rei de Espanha – ndt)?

Foi assim que, nas minhas entrevistas em horário nobre, vistas por milhões de turcos, pedi que apoiassem o exército, protegessem os interesses nacionais turcos e tratassem a Europa de igual para igual e nunca como um escravo trata o dono. De regresso ao aeroporto fui acompanhado por uma patrulha de furgonetas do exército turco e três viaturas da polícia.

Quando no programa com maior audiência no país na segunda-feira à noite me pediram que dissesse algo para encerrar o programa, disse ao povo turco que,

“Ao contrário do petróleo, a valentia é um recurso renovável. Estou tranquilo quanto ao futuro do vosso país maravilhoso, porque o povo turco demonstrou que tem valentia mais que suficiente. Chegou a altura dos governos nos começarem a temer a nós, cidadãos livres do mundo.” [consulte o original]

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